Em um dia choveu o esperado para o mês inteiro

Todo inverno, no Recife, em algum dia chove o esperado para o mês inteiro.
Talvez esteja na hora de a gente rever o que a gente espera de chuva para os meses de inverno no Recife.

Thiago Amazonas de Melo


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Na minha opinião…

A gente não quer esperar para formar nossa opinião em função dos fatos.

É mais conveniente reformar os fatos para que eles caibam na opinião que a gente já tem.

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Café para viagem

Já estava na hora do embarque, mas a gente precisava tomar um cafezinho. Com medo de atrasar, pedi em copinho descartável.

– Não temos copinho descartável, senhor.

Ótimo lugar, o aeroporto, para se abrir uma cafeteria que não vende café para viagem.

Thiago Amazonas de Melo


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Dez chamadas perdidas

Uma chamada perdida de tua mãe não significa absolutamente nada. Era um rotineiro “Filho, tás onde?”.
Duas chamadas perdidas de tua mãe eram para alguma pergunta que realmente demandava uma resposta tua.
Três chamadas significam que ela precisava de uma resposta depressa.
Agora, se tu acorda com dez chamadas perdidas de tua mãe, sinto muito; é que tua avó doente morreu.

Thiago Amazonas de Melo
Porto de Galinhas/PE, 16 de fevereiro de 2019.

 


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Política não se discute… (texto de 2014)

Política não se discute… com quem torce por partido como se fosse time de futebol.
Num jogo de campeonato, o torcedor quer mais é que seu time ganhe. Não importa muito a qualidade da partida ou se a vitória vai depender de um gol irregular. “O que vale é os três pontos”… Tudo bem: futebol é paixão.
Não convém, porém, aplicar essa mesma lógica à política. Se o meu pretenso colega de debate o faz, eu tiro o time de campo e perco de W.O., sem problema.
Eu não entro numa discussão sobre política se o meu interlocutor não consegue ver defeitos em seu candidato nem virtude no candidato adversário. Das duas, uma: ou a eleição é entre Deus e o Diabo ou ele é um torcedor eleitoral.
Em ambos os casos a discussão não me parece muito produtiva. O torcedor eleitoral é desonesto com o oponente e consigo mesmo. Ele esconde e nega cegamente fatos benéficos ao candidato opositor, e distorce suas interpretações da realidade para que elas, invariavelmente, favoreçam o seu candidato.
Pensando bem, torcedor de futebol é muito mais crítico do que torcedor de candidato. Ele tem noção de que seu time pode melhorar com as críticas. Aí chama o técnico de burro, pede substituição de jogador e discorda do sistema tático. O torcedor de futebol, ainda que com dificuldade, consegue reconhecer as qualidades do time adversário. O torcedor de partido dificilmente seria capaz dessas coisas.
Quero deixar claro que, de nenhuma maneira, isso quer dizer que eu só discuto com quem concorda com minhas posições, com quem tem as mesmas ideologias políticas que eu. Ao contrário, essa discussão, com um semelhante, tampouco me parece produtiva; provavelmente sairei dela do mesmo jeito que entrei.
O que é fundamental para mim é que meu interlocutor esteja mais interessado no avanço do país e na melhoria de vida das pessoas do que na vitória de seu candidato. Só assim, creio eu, ele poderá ser honesto nos seus argumentos. Portanto, antes de entrar numa discussão com alguém, eu me pergunto: “se o candidato adversário do dele perder as eleições, ele vai torcer, de coração, para o governo dar certo?”
E aí, tucano? Se os PTralhas ganharem as eleições, você será capaz de torcer para o Brasil e, consequentemente, o governo PTista se saírem bem nos próximos quatro anos?
E aí, PTista? Se os Tucanalhas voltarem ao poder, você vai desejar sinceramente que o modelo de gestão deles seja um sucesso e melhore a vida dos brasileiros?
Se sim, aceito convites para tomar um chopp e debater política.
Se não, após as eleições os domingos voltarão ao normal; podemos assistir a um jogo de futebol.

Thiago Amazonas de Melo
Recife, 22.10.2014


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Oração ao tempo

Há um ano, no meu aniversário de trinta anos, meu amigo Alvinho ligou para mim – ele é desse tempo em que as pessoas usavam o telefone celular para telefonar. Pela conversa, Alvinho achou que eu não estava lidando muito bem com essa história de entrar nos trinta. Ele, então, que já há muito tempo cruzou essa barreira, resolveu usar toda a sua experiência e maturidade para me ajudar: chegou em minha casa com uma câmera e uma garrafa de uísque, e só foi embora quando terminamos o litro. Eis a ressaca em vídeo:

Thiago Amazonas de Melo


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Poeira nos cantos

O tempo, na maior parte do tempo,
é traiçoeiramente discreto.
Ele sabe que, de pouquinho,
contado em minutos, em segundos,
não tem maior efeito.
Então, ele passa quietinho, de leve,
flutuando no sopro das horas,
como se se dissipasse na espuma dos dias.
Mas não: ele vai se acumulando em silêncio,
como poeira nos cantos.
Nem nos damos conta da sua existência,
até que, por exemplo, decidimos reler um livro há muito guardado
e encontramos uma foto antiga, escondida entre as suas páginas amareladas.
Assim, sem aviso prévio,
o peso de dez anos cai, de uma vez só, sobre a nossa cabeça.

 

Thiago Amazonas de Melo


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Tudo sobre minha mãe e Vander Lee

A música tem um espaço enorme na minha vida, e isso, com certeza, eu não puxei da minha mãe.

Dona Aureny não é das pessoas mais musicais do mundo, por assim dizer. Ela é uma mulher muito prática. Sempre está fazendo alguma coisa concreta pelos outros. Não costuma dedicar seu tempo a essas coisas imateriais, a contemplações. Então, nunca foi de comprar discos ou frequentar shows. É incapaz de decorar uma letra inteira e de cantar afinada ou, ao menos, no mesmo ritmo que o cantor do rádio.

Por eu me relacionar tanto com a música, e ela, tão pouco, as raras conexões dela com essa arte tem muito significado para mim. É como se nos aproximasse.

Que eu tenha presenciado, a primeira ligação da minha mãe com a música não poderia nos conectar mais: era ela cantando para eu dormir. Lembro da cantiga de ninar, da letra que ela adaptava para inserir meu nome e da sensação de absoluto conforto e segurança que aquilo me causava, mas não recordo do timbre da voz dela ou da sua afinação. É que não era simplesmente eu escutando com os ouvidos a voz que saia da sua boca. Era eu, deitado nela, “escutando” com uma lateral da minha cabeça a vibração do seu colo. Era muito mais do que som, era muito mais do que música.

Dessa época até a minha adolescência, não me vem à memória qualquer relação entre minha mãe e música. Já em 2003, fomos a Foz do Iguaçu, atravessamos a fronteira com o Paraguai e trouxemos de lá um aparelho de som portátil, baratíssimo, para a cozinha de casa, mas a sua função rádio nunca funcionou direito. Então, brotaram nas coisas da minha mãe, não sei de onde, uns discos que ela começou a escutar. Acho que, pela primeira vez na vida, ela escutou música ativamente, escolhendo o que ia escutar, em vez de apenas aceitar o que tocava na rádio.

Depois de uma breve experimentação, no som da minha mãe passaram a tocar apenas dois discos: um de Padre Marcelo Rossi e um CD ao vivo de um cantor MPB/Pop, sotaque mineiro, meio choroso.
“Quem é esse cantor, mainha?”
“Vanderli.”
Quem era esse cara que eu, que escutava tanta música, não conhecia, e minha mãe, sim? Fui ver a capa do CD: Vander Lee. Achei engraçado; ele não tinha cabelo nem barba. Só as costeletas.

A partir daí, só dava Vander Lee no som da cozinha e do carro da minha mãe, seja pelo CD dele que já morava ali, seja pela Nova Brasil FM.
Então passei a conhecer razoavelmente as suas canções, que sempre me remetem à minha mãe. Minha relação com a obra de Vander Lee é indireta, por via materna.

Há exatamente um ano, quando eu soube de sua morte, fiquei triste; não exatamente por mim, mas sobretudo por minha mãe. Foi como se tivesse morrido algum primo dela, querido e distante, que eu só vi uma vez na vida, quando criança.

Não sei ao certo a dimensão da música de Vander Lee para o Brasil, mas, na república independente da casa da minha mãe, com certeza ele é o mais querido, o mais tocado.
Para mim, por ter me trazido a minha mãe para mais perto, sua música tem um lugar importantíssimo guardado ao lado das canções que ela cantava para me ninar.

Thiago Amazonas de Melo


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