Queda livre

Na passagem para a vida adulta, eu me vi completamente perdido. Perdido no Recife, perdido em mim, decidi me exilar: fui viver à beira do precipício.

Por ali, durante meses sozinho, eu via as pessoas passando ao longe, mantendo uma distância segura. Eu, de minha parte, namorava a imensidão do abismo e rondava indeciso, só esperando um pretexto para pular.

Um dia, vi uma moça saindo do caminho seguro e pegando a vereda que margeava o desfiladeiro. Ela vinha leve e calma. Os braços, ao modo de asas no preparo para a decolagem, iam afastados do quadril. Seus passos pareciam comandados por metrônomo. Os pés, em extensão vertical das pernas finas, quase não tocavam a terra. Enquanto minha vista a alcançou, eu, encantado, não consegui parar de olhá-la.

Ela, por sua vez, nem me notou. Eu quis acreditar que foi por falta de atenção ou problema de visão – qualquer coisa, menos desinteresse. Então, para chamar a sua atenção, armei-me de um violão. Ela haveria de voltar pelo mesmo caminho. E voltou.

Enquanto ela se aproximava, toquei uma harmonia improvisada. A moça, para a minha surpresa, parou ao meu lado e começou a cantar uma letra para aquela música que, até então, não existia. Aí foi que eu me interessei de vez por ela e quis mais. Quis muito mais. Quis tudo com ela.

Avexado, agarrei-me ao pretexto e pulei do precipício, desafiando a menina a me acompanhar. Até onde os meus olhos podiam enxergar, o azul do céu se estendia infinitamente, de cima a baixo. Não havia horizonte. Portanto, ao pular, eu não sabia se viveria o sonho do voo livre para sempre ou se a solidez do chão estaria logo abaixo, esperando para frear brutal e impassivelmente aquela viagem.

De uma forma ou de outra, eu decidi que, se ela pulasse comigo, o salto sem paraquedas valeria a pena, durasse o quanto durasse.

Caindo sozinho, olhei para cima, apreensivo, e, para meu alívio, a menina preparou o salto: postura impecável, calcanhares juntos e pés apontando em direções opostas. Quase conseguindo esconder o nervosismo e a insegurança, ela flexionou os joelhos, arqueando as pernas, e lançou-se com extrema elegância ao nada – ou a tudo -, estampando no rosto a placidez de quem sabe voar.

Satisfeito, eu comecei a me exibir ao vento, fazendo manobras de amor arriscadas, fatais. Ela, apesar do medo, foi me acompanhando em cada movimento proposto. Aí eu propunha gestos cada vez mais imprudentes, buscando o limite da moça a qualquer custo. Ela, porém, despindo-se de maiores cautelas, não impunha restrições, apenas não tomava a frente na evolução; até que, durante o voo, por pura diversão, a menina me chamou para dançar – o que, para ela, implicava executar movimentos inofensivos, banais.

Eu, que a essas alturas já não cabia em mim de tanta confiança, tanta segurança, de repente, calei. De medo, estremeci. De vergonha, corei. O sangue que me faltou nas pernas bambas me subiu à face.

Rosto vermelho, sorriso amarelo, respondi derrotado, em tom de confissão: “eu não sei dançar”.

Thiago Amazonas de Melo


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Eu vs. Papel em branco

zaca-arruda-eu-vs-papel-em-branco

Foto de Zaca Arruda

Tenho medo do papel em branco.
Por isso, sempre que posso, fujo do confronto.
Só enfrento a peleja quando não há mais aonde ir.

Eis-me aqui, acuado,
atacando para me defender,
sem perspectiva de vencer
o branco infinito.
Essa batalha é mesmo assim:
por mais que eu já tenha escrito,
sempre há algo mais a ser dito,
sufocando dentro de mim.

Thiago Amazonas de Melo


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Ah, se ela soubesse…

Ah, se ela soubesse
o que seu sorriso me causa,
ela não faria assim,
não riria para mim
esse sorriso que me pausa.

Ah, se ela soubesse
como meu olhar dela é refém,
não agiria assim,
pensando que ninguém
a está observando;

não se descuidaria, mostrando o corpo que tem,
não ajeitaria o cabelo com tanto desdém,
ficando, mesmo assim, tão linda como costuma ficar.

Ah, se ela soubesse
como é dela o meu olhar,
não o faria congelar
deixando-o cruzar com o seu,
fazendo-me desejar
que o dela fosse meu.

Ah, se ela soubesse,
mas ela faz sem perceber,
e isso me dá mais vontade
de que ela faça sem querer querendo, por querer.

Ah, se ela soubesse
e, sabendo, ela quisesse
que seu sorriso e seu olhar fossem meus;
e, querendo, ela me desse…
Ah, meu deus, se eu pudesse!

Thiago Amazonas de Melo


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Réveillon

Acordei sacudido pelo impulso do vômito. Só deu tempo de botar a cabeça para fora da cama. Totalmente alheio a mim, meu corpo todo se contraiu para expulsar um escasso líquido amargo.

Terminado esse jato amarelo-esverdeado, inspirei todo o ar que pude antes que outro viesse. Mais rápido do que eu esperava, meus músculos se apertaram novamente e meu sistema digestivo se contorceu, tentando espremer de mim até a última gota de suco biliar, mas já não havia mais nada. Quando meu corpo se deu por satisfeito, cuspi a pouca saliva que consegui reunir na boca e deitei a cabeça de volta na cama.

Só então comecei a tomar consciência de mim. Eu estava exausto, suado e todo dolorido. Uma enorme enxaqueca me castigava a cabeça. Poucos segundos após o expurgo, eu já estava bastante nauseado de novo, sem ter o que vomitar.

Abri apenas um olho e apertei o outro, como quem mira um alvo. A pouca claridade que entrava pelas brechas da cortina já era suficiente para me incomodar a vista, mas não para eu identificar o lugar onde eu despertei de maneira tão repentina quanto desagradável. Não dava para ver, mas eu tinha certeza de que não estava em casa. Então, onde é que eu estava? Como é que eu fui parar ali?

Nesse momento, a última lembrança da noite anterior me veio turva à cabeça: taças de champanhe reunidas ao alto, no centro de um círculo que eu, familiares e amigos formávamos. Nessa posição, fizemos uma contagem regressiva, ao final da qual todos brindamos e viramos nossa bebida.

Forcei um pouco mais a memória e algumas outras imagens me vieram à mente em flashes: em todas eu tinha um copo de uísque na mão.

Estava explicado o motivo do meu estado deplorável, mas ainda me preocupava não saber o lugar onde eu estava. Quis me levantar para descobrir. A simples menção a esse gesto, porém, prenunciou outro vômito seco. Então, fiquei parado, refém do meu corpo, em posição fetal, tentando lembrar algo mais.

Nada.

Depois de algum tempo imóvel na penumbra, senti o cheiro daquele lugar e o achei familiar: não sei se era o desinfetante de chão ou o amaciante dos lençóis. Criei coragem de me mexer para conferir a sujeira que tinha feito e botei a cabeça para fora da cama. Vi apenas a silhueta de um balde. Tateei o piso ao seu redor e não senti uma gota. Alguém havia posicionado aquele balde cuidadosamente ali.

Isso só podia ser coisa de Dona Aureny.

Sentei-me na cama e, mesmo no escuro, comecei a reconhecer o espaço ao meu redor. Realmente aquela casa não era a minha. Aquele quarto não era o meu.
Aquele era o quarto da pessoa que eu era quando vivia ali, há muito tempo, na casa dos meus pais.

Thiago Amazonas de Melo
Recife, 1º de janeiro de 2017


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