Quero ser Alceu Valença

Quando eu disse a meu pai que iria estudar na Faculdade de Direito do Recife, o coitado sonhou que eu seria um juiz de direito, um promotor de justiça ou um jurista renomado, como Tobias Barreto, Clóvis Beviláqua e outros tantos que lá estudaram.
Eu, de minha parte, tinha outro ex-aluno da FDR em mente. Meus planos eram terminar a faculdade, nunca pegar o diploma e ser Alceu Valença. Somente.

Thiago Amazonas de Melo


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Destino certo

Quando ele se foi,
todos nós, amigos dela,
sofremos, de sua dor, uma parcela,
como se ajudasse a aliviar
um peso que, naquele justo instante,
só seu peito podia carregar.

Assim que ele se foi,
cada um de nós, amigos dela,
passou a amá-la um pouco mais,
como se após haver partido,
ele tivesse nos deixado seu amor por ela,
para que fosse repartido
entre todos que já a queriam bem.

Eu sei, ele se foi; todos irão.
Nosso destino final é certo.
Então, nós devemos nos manter por perto.
Assim, sempre que alguém se for,
o resto será herdeiro:
no rateio da dor,
na partilha do amor.
Que isso seja verdadeiro.

Thiago Amazonas de Melo


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procura

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Foto de Zaca Arruda

febril fervoroso
curió curioso
procuro a procura
pela formosura
em qualquer coisa

uma cor
uma flor
uma loucura

um amor
ora minha dor
ora minha cura

Thiago Amazonas de Melo


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HONESTAMENTE

Honestamente

O mais honesto de minha parte seria mentir:
dizer que não gosto mais de ti,
que não te quero nunca mais;
para te permitir seguir em frente,
para, enfim, te deixar em paz.

Depois,
só eu continuaria preso a nós dois.
Tu poderias te esquecer de mim;
eu, nem por um dia.
Jamais te esqueceria.

Thiago Amazonas de Melo


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Bloco do Mundo Imperfeito

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Foto: Zaca Arruda

Pintando o meu rosto,
estico o sorriso,
retoco o que é preciso,
melhoro o olhar.

Não me importa o dinheiro
nem como eu vou voltar.
Enfim fevereiro,
que, o ano inteiro,
esperei chegar.

Frevo, cores, zoada,
um cheiro e eu fervo
descendo a Ribeira.
De hoje até quarta-feira
eu sambo,
e, assim, me entorpeço,
me esqueço,
bambo,
também da cachaça,
que, um dia, passa
e deixa a ressaca.

Então, só restam as cinzas depois do Bacalhau.
Nesse dia ingrato, que me põe de volta no mundo real
e me tira a máscara, que ri e disfarça.
Sou obrigado a entrar nesse bloco sem graça,
que nem ritmo tem.

Carrego seu estandarte no peito:
“Bloco do Mundo Imperfeito”,
do qual muitos dizem que gostam; porém,
ele só serve para esperar
o carnaval do ano que vem.

Thiago Amazonas de Melo


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Prosaico

É preciso aceitar quando a poesia não está presente
e aprender a amar prosaicamente.
Entender que o impulso inapelável da paixão, pura poesia,
é golpe de sorte inicial, que nos põe na luta (à revelia),
mas não nocauteia o tempo.

A peleja do cotidiano só se vence por pontos.
Por querer. Por amar.
Por querer amar.
Por insistir.

É preciso resistir à contagem.

Thiago Amazonas de Melo


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Queda livre

Na passagem para a vida adulta, eu me vi completamente perdido. Perdido no Recife, perdido em mim, decidi me exilar: fui viver à beira do precipício.

Por ali, durante meses sozinho, eu via as pessoas passando ao longe, mantendo uma distância segura. Eu, de minha parte, namorava a imensidão do abismo e rondava indeciso, só esperando um pretexto para pular.

Um dia, vi uma moça saindo do caminho seguro e pegando a vereda que margeava o desfiladeiro. Ela vinha leve e calma. Os braços, ao modo de asas no preparo para a decolagem, iam afastados do quadril. Seus passos pareciam comandados por metrônomo. Os pés, em extensão vertical das pernas finas, quase não tocavam a terra. Enquanto minha vista a alcançou, eu, encantado, não consegui parar de olhá-la.

Ela, por sua vez, nem me notou. Eu quis acreditar que foi por falta de atenção ou problema de visão – qualquer coisa, menos desinteresse. Então, para chamar a sua atenção, armei-me de um violão. Ela haveria de voltar pelo mesmo caminho. E voltou.

Enquanto ela se aproximava, toquei uma harmonia improvisada. A moça, para a minha surpresa, parou ao meu lado e começou a cantar uma letra para aquela música que, até então, não existia. Aí foi que eu me interessei de vez por ela e quis mais. Quis muito mais. Quis tudo com ela.

Avexado, agarrei-me ao pretexto e pulei do precipício, desafiando a menina a me acompanhar. Até onde os meus olhos podiam enxergar, o azul do céu se estendia infinitamente, de cima a baixo. Não havia horizonte. Portanto, ao pular, eu não sabia se viveria o sonho do voo livre para sempre ou se a solidez do chão estaria logo abaixo, esperando para frear brutal e impassivelmente aquela viagem.

De uma forma ou de outra, eu decidi que, se ela pulasse comigo, o salto sem paraquedas valeria a pena, durasse o quanto durasse.

Caindo sozinho, olhei para cima, apreensivo, e, para meu alívio, a menina preparou o salto: postura impecável, calcanhares juntos e pés apontando em direções opostas. Quase conseguindo esconder o nervosismo e a insegurança, ela flexionou os joelhos, arqueando as pernas, e lançou-se com extrema elegância ao nada – ou a tudo -, estampando no rosto a placidez de quem sabe voar.

Satisfeito, eu comecei a me exibir ao vento, fazendo manobras de amor arriscadas, fatais. Ela, apesar do medo, foi me acompanhando em cada movimento proposto. Aí eu propunha gestos cada vez mais imprudentes, buscando o limite da moça a qualquer custo. Ela, porém, despindo-se de maiores cautelas, não impunha restrições, apenas não tomava a frente na evolução; até que, durante o voo, por pura diversão, a menina me chamou para dançar – o que, para ela, implicava executar movimentos inofensivos, banais.

Eu, que a essas alturas já não cabia em mim de tanta confiança, tanta segurança, de repente, calei. De medo, estremeci. De vergonha, corei. O sangue que me faltou nas pernas bambas me subiu à face.

Rosto vermelho, sorriso amarelo, respondi derrotado, em tom de confissão: “eu não sei dançar”.

Thiago Amazonas de Melo


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Eu vs. Papel em branco

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Foto de Zaca Arruda

Tenho medo do papel em branco.
Por isso, sempre que posso, fujo do confronto.
Só enfrento a peleja quando não há mais aonde ir.

Eis-me aqui, acuado,
atacando para me defender,
sem perspectiva de vencer
o branco infinito.
Essa batalha é mesmo assim:
por mais que eu já tenha escrito,
sempre há algo mais a ser dito,
sufocando dentro de mim.

Thiago Amazonas de Melo


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Ah, se ela soubesse…

Ah, se ela soubesse
o que seu sorriso me causa,
ela não faria assim,
não riria para mim
esse sorriso que me pausa.

Ah, se ela soubesse
como meu olhar dela é refém,
não agiria assim,
pensando que ninguém
a está observando;

não se descuidaria, mostrando o corpo que tem,
não ajeitaria o cabelo com tanto desdém,
ficando, mesmo assim, tão linda como costuma ficar.

Ah, se ela soubesse
como é dela o meu olhar,
não o faria congelar
deixando-o cruzar com o seu,
fazendo-me desejar
que o dela fosse meu.

Ah, se ela soubesse,
mas ela faz sem perceber,
e isso me dá mais vontade
de que ela faça sem querer querendo, por querer.

Ah, se ela soubesse
e, sabendo, ela quisesse
que seu sorriso e seu olhar fossem meus;
e, querendo, ela me desse…
Ah, meu deus, se eu pudesse!

Thiago Amazonas de Melo


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