Poeira nos cantos

O tempo, na maior parte do tempo,
é traiçoeiramente discreto.
Ele sabe que, de pouquinho,
contado em minutos, em segundos,
não tem maior efeito.
Então, ele passa quietinho, de leve,
flutuando no sopro das horas,
como se se dissipasse na espuma dos dias.
Mas não: ele vai se acumulando em silêncio,
como poeira nos cantos.
Nem nos damos conta da sua existência,
até que, por exemplo, decidimos reler um livro há muito guardado
e encontramos uma foto antiga, escondida entre as suas páginas amareladas.
Assim, sem aviso prévio,
o peso de dez anos cai, de uma vez só, sobre a nossa cabeça.

 

Thiago Amazonas de Melo


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Amarelinha

Parado, numa encruzilhada,
a meio-caminho,
entre o respeito e a saudade,
entre o desejo e a responsabilidade,
sem saber aonde ir.
Talvez, se eu voltasse…
¿Encontraría a la Maga?

 

Thiago Amazonas de Melo


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Tudo sobre minha mãe e Vander Lee

A música tem um espaço enorme na minha vida, e isso, com certeza, eu não puxei da minha mãe.

Dona Aureny não é das pessoas mais musicais do mundo, por assim dizer. Ela é uma mulher muito prática. Sempre está fazendo alguma coisa concreta pelos outros. Não costuma dedicar seu tempo a essas coisas imateriais, a contemplações. Então, nunca foi de comprar discos ou frequentar shows. É incapaz de decorar uma letra inteira e de cantar afinada ou, ao menos, no mesmo ritmo que o cantor do rádio.

Por eu me relacionar tanto com a música, e ela, tão pouco, as raras conexões dela com essa arte tem muito significado para mim. É como se nos aproximasse.

Que eu tenha presenciado, a primeira ligação da minha mãe com a música não poderia nos conectar mais: era ela cantando para eu dormir. Lembro da cantiga de ninar, da letra que ela adaptava para inserir meu nome e da sensação de absoluto conforto e segurança que aquilo me causava, mas não recordo do timbre da voz dela ou da sua afinação. É que não era simplesmente eu escutando com os ouvidos a voz que saia da sua boca. Era eu, deitado nela, “escutando” com uma lateral da minha cabeça a vibração do seu colo. Era muito mais do que som, era muito mais do que música.

Dessa época até a minha adolescência, não me vem à memória qualquer relação entre minha mãe e música. Já em 2003, fomos a Foz do Iguaçu, atravessamos a fronteira com o Paraguai e trouxemos de lá um aparelho de som portátil, baratíssimo, para a cozinha de casa, mas a sua função rádio nunca funcionou direito. Então, brotaram nas coisas da minha mãe, não sei de onde, uns discos que ela começou a escutar. Acho que, pela primeira vez na vida, ela escutou música ativamente, escolhendo o que ia escutar, em vez de apenas aceitar o que tocava na rádio.

Depois de uma breve experimentação, no som da minha mãe passaram a tocar apenas dois discos: um de Padre Marcelo Rossi e um CD ao vivo de um cantor MPB/Pop, sotaque mineiro, meio choroso.
“Quem é esse cantor, mainha?”
“Vanderli.”
Quem era esse cara que eu, que escutava tanta música, não conhecia, e minha mãe, sim? Fui ver a capa do CD: Vander Lee. Achei engraçado; ele não tinha cabelo nem barba. Só as costeletas.

A partir daí, só dava Vander Lee no som da cozinha e do carro da minha mãe, seja pelo CD dele que já morava ali, seja pela Nova Brasil FM.
Então passei a conhecer razoavelmente as suas canções, que sempre me remetem à minha mãe. Minha relação com a obra de Vander Lee é indireta, por via materna.

Há exatamente um ano, quando eu soube de sua morte, fiquei triste; não exatamente por mim, mas sobretudo por minha mãe. Foi como se tivesse morrido algum primo dela, querido e distante, que eu só vi uma vez na vida, quando criança.

Não sei ao certo a dimensão da música de Vander Lee para o Brasil, mas, na república independente da casa da minha mãe, com certeza ele é o mais querido, o mais tocado.
Para mim, por ter me trazido a minha mãe para mais perto, sua música tem um lugar importantíssimo guardado ao lado das canções que ela cantava para me ninar.

Thiago Amazonas de Melo


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